Sábado, 20 de julho de 2019   -     13:00 |
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'O medo nos paralisou', diz companheiro de piauiense morto por militar no DF

 Foto: Arquivo pessoal

Dois dias após o assassinato de Francisco de Assis Pereira da Silva, de 41 anos, o companheiro dele, o gerente de vendas Marcelo Soares Brito, de 40 anos, reconta os momentos de terror vividos sob a mira de uma arma no apartamento do militar da reserva da Aeronáutica Juenil Queiroz.

"A gente não teve ação nenhuma para nos defendermos. O medo nos paralisou."

Durante 9 minutos, Marcelo filmou a discussão entre o militar e as vítimas e até o instante em que o sargento atira na esposa, a artesã Francisca Naíde de Oliveira Queiroz, 57 anos, e em Francisco (veja vídeo abaixo).

O crime foi na última quarta-feira (12), na região do Cruzeiro, no Distrito Federal. Marcelo e o companheiro – com quem vivia há 5 anos – estavam no local para visitar amigas quando foram chamados por Queiroz para irem até o apartamento dele "resolver uma questão".  

O gerente de vendas afirma que o companheiro foi surpreendido pela acusação de ter um caso com a esposa do militar. Ele, Francisco e Francisca ficaram ouvindo as afirmações do ex-vizinho que dizia "ter provas do relacionamento dos dois".

"Eu jamais podia imaginar que seria esse o assunto. Francisco ficou pasmo ao ver que estava sendo acusado de ter um relacionamento com a mulher dele."

Marcelo diz que viu o militar pegar a arma, colocar a munição e atirar. Mas explica que não conseguiu reagir enquanto Queiroz descarregava o revólver nas duas vítimas.

"Depois que ele fez os disparos, eu conseguir sair correndo. Vi que as balas tinham acabado.”

Planos interrompidos

Francisco de Assis Pereira da Silva, de 41 anos, foi atingido com um tiro na cabeça — Foto: Arquivo pessoal Foto: Arquivo pessoal

Segundo Marcelo Brito, a violência do crime interrompeu os planos do casal para o futuro. Eles planejavam abrir um restaurante.

“Francisco estava fazendo um curso de gastronomia, todo dia chegava com uma ideia nova."

O corpo de Francisco de Assis foi velado durante a madrugada dessa sexta-feira (14), em uma casa no Cruzeiro, pelo companheiro e amigos. Ele será sepultado no Piauí, sua terra natal.

Francisca Naíde de Oliveira Queiroz foi sepultada na manhã desta sexta, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, em Brasília.

Crime registrado no celular

Na noite da última quarta-feira, ao chegarem no prédio onde moravam, Juenil Queiroz e Francisca Naíde encontraram Francisco de Assis, o ex-vizinho de quem o militar tinha ciúmes.

Francisco estava com o companheiro, Marcelo Brito. Os dois moraram no condomínio por dois anos e se mudaram há cerca de 10 meses.

 Foto: Arquivo pessoal

Marcelo diz que jamais imaginaria que ao ir até o apartamento do militar fosse presenciar um duplo assassinato. Mas lembra que assim que entraram, teve início a discussão.

Nas imagens gravadas por ele, Queiroz diz que "matar ou morrer, tanto faz." Marcelo pede calma durante todo o tempo e diz "que não houve isso".

"Seu Queiroz, ele não fez isso. Eu ponho minha mão no fogo", diz Marcelo.  

O militar continua afirmando que os dois tiveram um caso e que não vai perdoar. Francisca tenta pegar o celular para também gravar e o marido ameaça.

“Se você pegar esse telefone, você morre agora.”

É possível ouvir Francisco chorando ao fundo. O sargento pergunta se ele vai assumir o suposto relacionamento e a vítima afirma, mais uma vez, que não fez nada.

Tiros à queima roupa

Em um determinado momento, é possível perceber que Juenil Queiroz pega uma arma e começa a carregá-la. O barulho das balas pode ser ouvido na gravação. 

O militar pergunta, mais uma vez, se Francisco vai assumir. Francisco pede ao companheiro, Marcelo, que avise aos pais dele de "qualquer coisa".

Marcelo repete que não houve traição. O militar pede para o companheiro de Francisco sentar e diz:

"A gente vai resolver assim", e dois tiros são dados.

É possível perceber que a arma falha em determinado momento. Depois, um terceiro disparo e Francisca grita. Ouve-se ainda um quarto tiro. O sargento pergunta se a mulher morreu e um quinto disparo é dado. Depois, o militar fala: "é assim que a gente resolve".

Queiroz diz para Marcelo que ele pode chamar a polícia. O companheiro de Francisco, muito nervoso, fala que procura pelas chaves do carro. Alguém põe a mão sobre o celular que, em seguida, é desligado.

Medida protetiva   

  Foto: Arquivo pessoal 

Francisca sabia que o marido era ciumento e agressivo. Em outubro de 2018 ela pediu proteção à Justiça.

Na época, denunciou que havia sido agredida por Juenil Queiroz. Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal, uma ocorrência foi registrada na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam).

O inquérito foi concluído em março desse ano e a Justiça tornou o militar réu pelos crimes de injúria, dano e vias de fato. Em abril, Francisca desistiu do processo contra o marido.

Prisão preventiva

Na quinta-feira (13), a Justiça do Distrito Federal decidiu manter Juenil Queiroz preso, por tempo indeterminado.

Segundo a juíza Maria Cecília Batista Campos, o militar "demonstra notória frieza". Na ata da audiência de custódia, a magistrada destacou que o crime “revela a elevada periculosidade do autuado”.  

* Com informações do G1 DF

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