Sábado, 16 de outubro de 2021   -     17:53 |

MUITO ALÉM DOS MORTOS: Quando as eleições reavivam os esqueletos

Recentemente, assisti pela segunda vez, a minissérie britânica “Quando os Sinos Dobram” que relembra os horrores e dissabores da guerra enquanto conta a história de conquistas e paixões vividas por jovens soldados, bem como a ilusão da brevidade do tempo dos dias entre destruição e esqueletos. O nome da série foi inspirado no poema ´Hino a juventude condenada´. Para a juventude, toda honra e toda glória durante o combate. Após, restava o silêncio e a lembrança conflituosa do período bélico.

As figuras combativas da advocacia estadual também estão condenadas, mas não pela causa nobre da profissão, mas pela ilusão das escolhas que se revertem em práticas escusas e em benefício próprio.  As histórias em torno de figura conhecida no meio jurídico no Piauí despertam gatilhos que, automaticamente, nos fazem percorrer pelas artimanhas do bom senso, do poder e das ilusões que rondam a OAB.

O caso novelesco envolve o renomado advogado Chico Couto e a clara intenção em se eternizar no Conselho Federal da OAB-PI e, para isso, precisou reelaborar seus planos. Relembrando: Couto participou, na OAB-PI, da campanha e da gestão de William Guimarães (2013-2015). Depois, virou as costas a William para fazer campanha e participar da gestão de Chico Lucas (2016-2018), quando se elegeu Conselheiro Federal pela primeira vez. Na eleição posterior, no entanto, virou também as costas a Chico para fazer campanha e compor a chapa do atual Presidente da Ordem, Celso Barros Neto, novamente como Conselheiro Federal.


O problema é que, agora, seu histórico não confiável e os esqueletos que ele guarda no armário fizeram com que nenhum grupo político o queira mais em sua chapa - diz-se, inclusive, que veio da cúpula da OAB Nacional um pedido aos pré-candidatos de que não o colocassem nas chapas, pois ninguém o aguenta mais lá em Brasília. Diante desse cenário, o esperto e inveterado advogado, político de ordem profissional, precisou se reinventar e refazer seus planos: pretende lançar sua própria esposa, Nara Letícia, como candidata a Presidente da ordem em uma chapa em que, é claro, ele figuraria como Conselheiro Federal.

O DESVIO DE DINHEIRO DA OAB

Esqueletos pelo caminho: de quem é esse dinheiro?

Plano traçado, estratégia conferida, porém, consta que Couto esquece que existem esqueletos no meio do caminho. Em 2018, o advogado Chico Couto se propôs a coordenar, junto à OAB-PI, o III Congresso de Direito Previdenciário do Piauí. Ocorre que no dia do evento o tinhoso advogado substituiu a maquineta de cartão de crédito usada para recolher os valores das inscrições dos advogados no evento por uma outra que direcionava estes valores para sua própria conta pessoal.

Com essa iniciativa, Couto teria desviado dos cofres da OAB-PI o valor de aproximadamente R$ 30.000,00 (trinta mil reais). Quando o furo foi descoberto pela Diretoria da ordem, mesmo confrontado, o advogado se recusou a devolver os valores. "Por este desvio de conduta, a OAB-PI tornou-o inelegível", dizem nos bastidores.

A Justiça Federal também foi instada a se manifestar sobre o caso e a Juíza Federal dra. Marina Cavalcanti, nos autos do processo nº 1002698-92.2018.4.01.4000, obrigou Chico Couto a devolver os valores que havia desviado da OAB-PI, sob pena de permanecer inelegível nas próximas eleições da ordem.

Com isto, para que pudesse concorrer, na chapa de Celso Neto, ao cargo de Conselheiro Federal que hoje ocupa, Couto assinou um termo confessando sua dívida para com a OAB-PI e precisou ressarcir a instituição dos valores que havia ilegalmente desviado.


Extrato bancário da devolução feita à OAB-PI (Imagem: Reprodução)

O nobre advogado, envolto na ilusão do poder eterno, traz para perto de si a realidade dos mortos vivos: só funciona nos bastidores. Pode ser excelente na manipulação, mas a junção de seu nome a qualquer time, resgata das tumbas da ganância esqueletos que assombram, afastam e destroem muito mais do que somam. "O desvio de dinheiro da Ordem é só um deles".

*Reportagem: Francisco Barbosa

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