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Curso ensina a encontrar o poder no autoconhecimento dos órgãos genitais

 
 Foto:  Reprodução/Cosmopolitan

Eu nunca ejaculei, nunca fiz massagem orgástica (quer dizer, agora já! Leia abaixo, em “O Grand Finale!”) nem pompoarismo, e errei mais da metade de um quiz de dez perguntas sobre a anatomia da minha própria vulva! A verdade é que mal consigo reproduzir o formato dela. Minha tentativa de moldá-la em massinha resultou em algo mais parecido com um cachorro-quente. Se eu estivesse participando de um drinking game valendo um shot de tequila a cada “eu nunca”, resposta incorreta ou dúvida, teria ficado bem bêbada. Mas não era papo de bar — essas foram algumas das minhas constatações durante o curso Empoderamento do Prazer Feminino, da Casa Prazerela.

A oficina é uma das atividades oferecidas no amplo espaço criado no começo de 2017 pela curitibana Mariana Stock, 34 anos. A proposta é incentivar nas mulheres o autoconhecimento corporal e a exploração da sexualidade e do prazer. Localizada na Vila Madalena, em São Paulo, a casa tem uma atmosfera de refúgio zen, com jardim repleto de árvores e elementos de decoração que remetem ao universo feminino. Assim que a gente entra lá, já se sente à vontade. E não, não teve nudez, sacanagem, putaria. Os dois módulos que frequentei lembram mais uma dinâmica de grupo, uma conversa aberta entre amigas que estão compartilhando suas histórias (o relato sobre o terceiro módulo, mais hot, estará em breve no site da COSMO).

A história de Mariana já mudou o meu feeling de que eu veria mais do mesmo por ali (escrevo sobre sexo há dez anos!). Depois de trabalhar durante muito tempo como gerente de marketing em uma grande empresa, Mari sentiu que estavam faltando prazeres “menos materiais” na sua vida. Pediu demissão e embarcou em uma jornada que incluiu cursos de tantra, de doula, psicanálise e muita leitura sobre o universo feminino.

Foi assim que se tornou especialista no tema. Já eu descobri logo de cara que sou muito menos expert do que imaginava. “A maioria das mulheres que frequentam a oficina [foram mais de 400] acha que sabe mais do que realmente sabe sobre a própria sexualidade”, constata Mari. Pois é… tamo junto, amigas!

Prazer x dor

Durante o primeiro exercício, nosso grupo de 31 mulheres, entre 20 e 60 anos, já começou a se dar conta disso quando começamos a falar em voz alta sobre as coisas que nos dão prazer: “sexo”, “comida”, “viagens”, “dormir”, “beijar”, “marido”, “carinho”, “cozinhar”, amigos”, “maternidade”, “ficar sozinha”. Enquanto íamos fazendo as associações, Mari anotava tudo em uma folha grande. Depois de alguns minutos, as ideias começaram a se repetir com palavras diferentes, e logo ficamos em silêncio. “Agora vamos listar o oposto, tudo o que vocês associam a dor”, continuou.

“Desencontro”, “separação”, “doença”, “perda”, “briga”, “luto”, “frustração”, “depressão”, “julgamento”, “preconceito”, solidão”, “saudade”, “falta”… Não dei conta de anotar todas as palavras que apareceram, e mais algumas da lista anterior que voltaram. Placar final: uma folha quase cheia de prazer e duas lotadas de dor. “Esse resultado se repete em quase todas as dinâmicas”, disse Mari.

É por isso que ela sempre começa o curso com esse exercício. Confesso que até aquele dia eu nunca tinha parado para pensar nisso e nas consequências dessa desproporção para nossa vida sexual. Como vamos fazer um sexo realmente prazeroso se não estamos acostumadas a essa sensação? E, pior, se mal conhecemos a nossa anatomia? Essa é outra verdade que fica escancarada no curso.

Descoberta do clitóris e pepekas falantes

Eu sabia que o clitóris é o responsável pelo nosso prazer (sua única função!). Mas não sabia (ou não lembrava?) que a parte externa, que conseguimos tocar, é só a pontinha de um iceberg orgástico de cerca de 10 centímetros, com 8 mil terminações nervosas (o pênis tem metade disso), que envolve a maior parte do canal vaginal. Eu também já tinha escrito em reportagens para a COSMO que a gente consegue gozar com mais facilidade durante o sexo oral, a masturbação, enfim, com a estimulação direta ou indireta desse órgão mágico. Mas não tinha me dado conta de que o motivo é porque, anatomicamente, é impossível para o pênis friccionar o clitóris em todas as posições.

Surpresa! Assim como a maior parte das participantes do curso, eu não conhecia a anatomia do clitóris! Ok, ela só foi descrita nos livros em 1998 — data em que muitas de nós já estávamos até transando. “A gente acaba não se embrenhando nesses questionamentos, que são anteriores ao sexo”, diz Mari. Verdade. Ficamos tão preocupadas em gozar nessa ou naquela posição, em corresponder à expectativa de ser a deusa do sexo, que não olhamos para o nosso próprio corpo.

Pra quebrar o gelo, Mari começou: falou sobre padrões estéticos, de descobertas, de prazeres e de frustrações. Impressionante como, por mais diferentes que fossem umas das outras, seja na vida real, seja no formato artístico que adquiriram pelas mãos da dona, as vulvas falantes tinham muitas histórias em comum — e tristes: não podiam ser tocadas porque isso era feio e sujo, tinha alguma coisa errada com a aparência delas, eram associadas a doenças, a gravidez indesejada, medo, repressão. Sem contar os apelidos (pepeka, lambreta, xeca, xixá, xaxá, pipinha…). “Qual o problema com o meu nome?”, imagino que elas diriam também.

Preciso de atenção!

Se temos tão pouca intimidade com nosso órgão sexual externo, com o qual estamos em contato (ou deveríamos estar) todos os dias, pobres dos internos. Faz menos de um mês que vi pela primeira vez meu colo do útero fora de um exame ginecológico, com a ajuda de um espéculo que eu e todas as participantes ganhamos no curso. É o mesmo aparelho que o ginecologista usa, só que de plástico (e pode ser encontrado em qualquer farmácia, bem baratinho).

A diferença é que quando você o manipula ele perde aquela aura de instrumento de tortura (leia box “Oi, Sumida!”). “Mas por que olhar o útero?” Porque faz parte do seu corpo! E porque, descobri na oficina, além de olhar, dá para tocar, e, pela textura, saber em qual período do ciclo estamos (mais macio = fase fértil).

Descobri também que precisamos prestar mais atenção na gente! Nos observar e nos explorar são ações que fazem parte do autoconhecimento. E esse é o único caminho para chegar até o que nos dá prazer e nos apropriar dele, que é a proposta do curso. Lição aprendida! Já estou pronta para um drinking game sobre o tema. Valendo!

Oi, sumida!

Com a ajuda do espéculo, você pode ver o seu canal vaginal, as paredes, as secreções (se houver), o colo do útero e seu orifício. prazer, essa é sua vagina!

1. Acomode-se numa mesa ou no chão e fique sentada ou deitada, com os joelhos dobrados e os pés bem afastados. O importante é se sentir confortável e relaxada na posição.

2. Se sentir necessidade, lubrifique o espéculo. Afaste bem os lábios e os pelos. É mais fácil colocá-lo apontado para baixo, pois o canal vaginal geralmente tem uma leve inclinação nessa direção.

3. Quando atingir o fundo da vagina, gire lentamente o espéculo de forma que as abas possam abrir de maneira vertical. Abra o máximo possível, sem que ele te machuque.

4. Agora direcione um espelho em frente à sua vagina e procure o melhor ângulo de observação. Use uma lanterna para iluminar o espelho ou a vagina para facilitar. Divirta-se!

5. Para retirar o espéculo, é só destravá-lo e ir deixando-o sair devagar, sem fechá-lo bruscamente. Você pode reutilizar o aparelho depois de esterilizá-lo com álcool 70.

O grand finale!

Para uma imersão total, eu tinha de experimentar a terapia orgástica, também conhecida Como massagem tântrica. depois de passarem pelas oficinas, as mulheres ficam mais abertas a explorar sua sexualidade. Não tenho dificuldade para gozar me masturbando. Por isso, não pensei duas vezes antes de marcar a primeira sessão da terapia orgástica oferecida na Prazerela imediatamente após o fim do curso. Nunca uma segunda-feira foi tão esperada! Enquanto aguardava a minha vez,comecei a ouvir um gemido vindo do andar de cima, apesar da música alta que tocava. Os gritos foram ficando cada vez mais altos, intensos, prazerosos. “Uau, será que vai ser assim comigo?” Foi!

Quem me atendeu foi a Kira, que há três anos é especialista na técnica. Contei um pouco sobre mim e sobre o momento que estou vivendo. ela me explicou que a massagem seria uma mistura do nível 1 (estimulação do corpo) com o nível 2 (estimulação do clitóris). “O objetivo é levar a mulher a um estado alterado de consciência e percepção da sua sensorialidade. Vai muito além do foco funcional do orgasmo como em outras abordagens”, disse.

Não sei como são as “outras abordagens”, mas essa, de fato, alterou minha consciência, meu corpo, minha vida. Os dois primeiros orgasmos foram parecidos com os que eu já conheço, só que mais intensos — parecia que vinham das profundezas do meu corpo. Mas no fim da sessão, enquanto meu clitóris era estimulado com o que eu imagino ser um massageador daqueles bem potentes (nem consegui abrir o olho pra ver), veio uma sensação que eu nunca havia experimentado: uma mistura de aflição, que produzia em mim um reflexo de fechar as pernas, com prazer, que me fazia abrir de novo. “Em vez de travar, pode gritar”, orientou Kira. Quanto mais alto eu gritava, mais prazer e menos aflição eu sentia. Nem sabia que aquilo era um orgasmo. Agora que eu sei, vou continuar gritando pra ver se ele volta!




Fonte:Cosmopolitan


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