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Festival de Violeiros caminha para meio século

Aos 87 anos de idade, 45 dos quais dedicados ao Festival de Violeiros, o jornalista Pedro Mendes Ribeiro apresenta o evento com o mesmo entusiasmo de quando começou. O local é sempre o mesmo, o Teatro de Arena, na Praça da Bandeira. O principal patrocinador, o Grupo Claudino, também é o mesmo, inclusive com a manutenção da Casa do Cantador, que hospeda os cantadores durante a temporada, que é de três dias seguidos.

A plateia que assiste as apresentações é composta de pessoas simples, porém amantes da cultura popular. Durante os três dias funcionam barracas com bebidas típicas e obras de arte, como cordéis, CDs e DVDs. Os cantadores se apresentam em duplas, explorando temas e modalidades de rimas sugeridas pelo apresentador, inclusive motes, uma frase ditada pelo apresentador e que encerra cada grupo de versos.

Os motes da primeira noite foram estes:

- A mulher que eu amava no passado despediu-se de mim e foi embora.

- Cantei muito contigo no passado e me alegro cantando no presente.

- Quem me abandonou sorrindo hoje me liga chorando.

- A natureza castiga quem maltrata os filhos dela.

- Sou feliz porque amo e quero bem à mulher que me ama de verdade.

O mote obriga o cantador não apenas a construir as rimas de modo a utilizá-lo no final de cada grupo, mas também a versejar sobre episódios pertinentes. Exemplo: usando o mote “quem me abandonou sorrindo hoje me liga chorando” os cantadores fizeram engraçadas ficções sobre a mulher que se achava dona de tudo no casamento e depois se viu sozinha. A platéia se deleitava.

Emboladores e o celular

Jotinha e Jotão, dupla de emboladores de Teresina que há longos anos vem fazendo sucesso, se apresentou na noite de abertura do 45º Festival de Violeiros, explorando a questão dos celulares, que hoje leva as pessoas, de crianças a idosos, a se distraírem, mesmo quando o momento exige atenção, seja numa reunião ou numa fila. As rimas foram muito engraçadas. Eu aproveitei par sugerir que a dupla inclua os motoristas que deixam de observar o momento em que o semáforo pede passagem.

Político no festival

Não se sabe se por medo de crítica ou mesmo por não considerar a importância do violeiro na divulgação da cultura popular, o fato é que os políticos piauienses, a partir dos vereadores de Teresina, não comparecem ao Festival de Violeiros. Essa ausência sempre foi sentida ao longo dos anos. Contudo, na abertura do 45º Festival, na última sexta-feira, um político tradicional compareceu, sendo bem recebido pelos promotores do evento: trata-se do deputado federal José Francisco Paes Landim, que permaneceu até o final das apresentações.

Menor dá show de viola

As duas maiores atrações da segunda noite do Festival de Violeiros foram Fabiane Ribeiro, de Codó-MA, e Wilton Alves, de apenas 11 anos, de Pimenteiras-PI. Ela se destacou pela voz afinada e pela clareza no repente. O garoto cantou com o pai e arrancou aplausos por construir rimas em martelo agalopado, uma modalidade que exige muito do repentista. O empresário João Claudino, principal patrocinador do evento, ganhou versos do garoto.

Motes da segunda noite

Os motes na segunda noite do Festival de Violeiros foram os seguintes:

- Amor de mãe dá pra ver que é puro e sem falsidade

- A vida perdeu a graças depois que ele foi embora

- Tu não sabes perguntar nem eu sei responder nada.

- Eu vou morrer de saudade se não voltar pro sertão.

- Muito antes de haver o alfabeto já havia idioma e linguajar.

Desses cinco motes o segundo foi o que gerou as rimas mais interessantes. Os repentistas adoram enaltecer a mulher em suas cantorias.

Veteranos no festival

O Festival de Violeiros encerrou com a presença do prefeito Firmino Filho. O deputado Fábio Novo assistiu da plateia, temendo ser punido pela Lei Eleitoral. Ele foi convidado a subir ao palco mas não aceitou. Os violeiros que há mais tempo participam do evento, Ivanildo Vilanova e Moacir Laurentino se apresentaram. Rosinha, de Zé Doca-MA, foi a terceira mulher a se apresentar no festival. Uma ambulância do Itacor, um dos patrocinadores, ficou estacionada o tempo todo, mas nenhum dos presentes sentiu qualquer problema de saúde.

Cordel sem censura

O jornalista Pedro Mendes Ribeiro confirmou o que eu já imaginava: o regime militar de 1964 não censurou a literatura de cordel. O Festival de Violeiros foi criado em pleno regime de exceção (1971) e nunca sofreu qualquer restrição. Apesar da plena liberdade democrática vivida no país, os repentistas não abusam dela. Suas ironias são plenamente aceitáveis em qualquer idade. Eles abordam mais o passado do que o presente. Boa parte prateia levou filhos menores para assistirem a cantoria.

Descaso na Segurança

O deputado Gustavo Neiva (PSB) denunciou o que chamou de descaso na Segurança, não apenas por falta de manutenção nas viaturas mas também por falta de armas e munições. Ele disse ter recebido informação de fonte fidedigna, de que o governo comprou munição e armas em outubro do ano passado e até hoje não pagou sequer uma parcela. À empresa CBC a dívida é de R$ 970.655. A dívida é maior à empresa Tauros, no valor de R$ 1 milhão e 600 mil. Segundo o deputado, o estoque de munição na

Segurança só dá uma bala para cada policial e as empresas fornecedoras, que se fundiram em uma só, não fornecem mais seu produto e também não há outra empresa credenciada. Um requerimento pedindo audiência pública para debater a Segurança será apresentado pelo deputado na sessão de amanhã (28).

O humor de cada dia

Já que tivemos três noites de animadas cantorias no 45º Festival de Violeiros, vamos aqui a um episódio engraçado vivido por uma admiradora do poeta Zé da Prata. Devo lembrar que uma das qualidades do repentista era ironizar alguém, mesmo que fosse um membro da platéia. Assim, numa residência que o acolheu para uma cantoria a platéia fez fila para colocar a moeda na bacia, juntamente com o nome, para ter direito ao agradecimento. Lá pelas tantas uma mulher um tanto feiosa colocou o dinheiro com o nome em um pedaço de papel e ouviu o que não queria:

- Tu dizes chamar-se Rosa

Olho e não vejo a roseira

Acho melhor ir pra casa

Aqui não tem quem te queira.

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